Corno de Verdade

Meu nome é Marcinho, mas na quebrada todo mundo me chama de Marcinho Corno desde que a treta estourou. Não, pera, deixa eu explicar direito que a história é foda.
Eu sou o cara que trabalha de entregador de iFood na CG-125 2008, aquela vermelha que já tá mais remendada que cueca de presidiário. Moro no Barro Vermelho, casa de taipa com telhado de amianto que pinga quando chove forte. Minha mina é a Jaqueline, 1,68 de altura, bunda que não cabe em calça legging e um gênio que parece granada com o pino já puxado.
A gente tava junto fazia uns quatro anos. Eu ralava de segunda a segunda pra pagar as parcelas da moto, a internet da casa e as unha dela que custava mais caro que meu aluguel. Ela ficava em casa cuidando da neném (minha enteada, na real) e postando vídeo dançando no TikTok com som de MC Kevin o Chris.
Aí apareceu o desgraçado do Rafinha da oficina. Rafinha é daqueles mecânico que tem diesel na veia, tatuagem de caveira no braço, corrente de ouro falsa no pescoço e um Corolla 2010 rebaixado que faz barulho de avião quando passa na rua de terra. O cara consertava moto de graça pra mim só pra poder ficar batendo papo com a Jaqueline enquanto eu tava na rua entregando lanche.
Começou devagar. Primeiro era “oi amor” no zap dela que eu via de canto de olho. Depois era foto dela no Stories com legenda “obrigada pelo conserto moço 😏”. Depois era ela saindo “pra comprar pão” e voltando com o cabelo bagunçado e cheiro de graxa misturado com perfume doce.
Eu via tudo. Sabia de tudo. Mas fingia que não via. Porque se eu falasse, ia ter que arrumar outro lugar pra morar, e com 800 conto de iFood por semana não dá pra pagar dois aluguel.
Até que numa sexta eu cheguei em casa mais cedo. Tava chovendo pra caralho, cliente cancelou corrida, eu tava ensopado. Abri a porta devagar e ouvi o barulho. Não era gemido não, era risada dela misturada com voz grossa de homem falando “deixa eu ver esse cuzão aí de novo”.
Entrei no quarto. Rafinha tava deitado na nossa cama, cueca boxer preta abaixada até o joelho, pau pra cima como se fosse bandeira hasteada. Jaqueline tava de quatro, de calcinha de lado, rindo enquanto mexia no celular filmando.
Quando me viram, os dois congelaram.
Rafinha tentou levantar rápido, mas escorregou na coberta e caiu de bunda no chão. Jaqueline puxou o lençol e começou a gritar:
— Marcinho, não é o que você tá pensando!
Eu olhei pra ela, olhei pro Rafinha tentando se cobrir com a fronha da minha filha, olhei pra cama que eu paguei 12x no cartão e falei a única coisa que saiu na hora:
— Puta que pariu… vocês podiam pelo menos trocar o lençol depois.
Rafinha começou a gaguejar:
— Mano, foi só uma vez… eu juro…
Eu peguei a chave da moto no bolso, joguei na cara dele e falei:
— Leva ela embora na tua oficina então. Porque aqui não tem mais vaga pra corno.
Saí de casa na chuva mesmo, sem pegar nada. Subi na CG, dei partida e saí acelerando na lama. Parei no bar do Seu Zé, pedi uma long neck e fiquei olhando a chuva bater na calçada.
Uns três dias depois a Jaqueline apareceu no bar chorando, pedindo pra voltar. Disse que errou, que tava arrependida, que o Rafinha era um filho da puta.
Eu olhei pra ela e falei:
— Sabe qual é a pior parte, Jaqueline? Não é você ter dado pra ele. É que eu sabia fazia meses e continuei pagando a conta de luz pra vocês foderem na minha cama.
Levantei, paguei a cerveja e saí.
Hoje eu moro num quartinho alugado na Cohab, divido com dois parça, como miojo todo dia e ainda entrego lanche. Mas sabe o que? Pela primeira vez em anos eu durmo sem acordar no meio da noite imaginando se minha mulher tá gemendo pro vizinho.
Então sim, eu fui corno. Corno pra caralho.
Mas corno que acordou.
E corno que acordou é pior que qualquer macho alfa de academia.
Porque quando a gente acorda, a gente não briga. A gente só vai embora.
E deixa o outro com a cama, a culpa e a vergonha.